NEURONAL CEROIDO LIPOFUSCINOSE ( NCL ) 1  –  DOENÇA DE SANTAVUORI

NEURONAL CEROIDO LIPOFUSCINOSE ( NCL ) 1  –  DOENÇA DE SANTAVUORI


O que é?
É uma das CLN mais comuns e é causada por variantes bialélicas com perda de função no gene CLN1, que codifica a proteína lisossomal PPT1 (palmitoíl-proteína tioesterase 1).
Classicamente foi descrito como a forma infantil de CLN.

 

Quem é afetado?
Tipicamente afeta lactentes e crianças dos 6 aos 24 meses (forma infantil), mas algumas variantes patogénicas no CLN1 podem causar doença com início mais tardio, nomeadamente forma infantil tardia (2-4 anos), juvenil (5-10 anos) ou em adultos.

 

Sintomatologia
Na forma infantil, a criança tem um desenvolvimento típico inicialmente, até aos 6-18 meses, em que começam os sintomas de neuro-regressão/declínio cognitivo, défices motores/ hipotonia, ataxia, mioclonias, alterações do sono e epilepsia (crises generalizadas, incluindo mioclónicas). Podem ter estereotipias manuais, e microcefalia devido à atrofia cerebral progressiva. A perda visual ocorre pelos 2 anos de idade, com atrofia ótica e alterações na retina. Progressivamente, desenvolvem espasticidade grave e coma. Culminam em morte aos 9-13 anos.
Na forma infantil tardia, apresentam-se com declínio visual e cognitivo e posteriormente ataxia e mioclonias.
A forma juvenil tem como apresentação um quadro de declínio cognitivo, seguido de epilepsia, declínio motor e perda visual.
Há casos descritos de início em adulto, que começam com declínio cognitivo e depressão, seguidos de ataxia, parkinsonismo e perda visual.

 

Diagnóstico
No caso de suspeita diagnóstica, será pedido um teste genético, nomeadamente painel de genes para CLN, epilepsia ou doenças lisossomais, ou exoma. O teste enzimático (para o CLN1) e/ou a biópsia de pele podem ser necessários para confirmar ou excluir o diagnóstico, caso o teste genético seja inconclusivo.
Perante uma criança com atraso global do desenvolvimento psicomotor ou neuro-regressão, principalmente quando associados a crises, alterações ao exame neurológico e/ou micro/macrocefalia, está recomendado neuroimagem cerebral (ressonância magnética), que pode revelar alterações como atrofia cerebral marcada e precoce ou do cerebelo, hipointensidades em T2 no tálamo ou alterações da substância cinzenta. Podem existir alterações da substância branca, como hipersinal T2/FLAIR difuso devido à neurodegeneração, apesar de não serem tão preponderantes como noutras NCL.
A retinografia mostra atrofia ótica precoce e palidez difusa do disco com degenerescência retiniana e os potenciais evocados visuais estão alterados – diminuídos e extinguem-se com a evolução da doença (degeneração retiniana/ótica).
O EEG tem alterações da atividade de fundo com: diminuição da reatividade do ritmo posterior à abertura e encerramento ocular, diminuição e depois desaparecimento dos fusos do sono e lentificação e/ou atenuação do EEG (“vanishing EEG pattern” ou EEG isoelétrico). Mesmo antes das crises clínicas, o EEG pode ter um padrão de vanishing (na forma infantil e na forma infantil tardia), apesar de também poder ser normal.

 

Tratamento
O tratamento é de suporte ou sintomático dirigido caso-a-caso, nomeadamente anti-epiléticos (lamotrigina, valoproato, topiramato, levetiracetam) ou dieta cetogénica para a epilepsia, baclofeno ou benzodiazepinas para a espasticidade, fármacos para as alterações do humor e comportamento (quetiapina) e/ou tratamento farmacológico para a doença do movimento (baclofeno, triexifenidil, clonidina, toxina botulínica, benzodiazepinas, zonisamida), apenas se for impactante.
Relativamente ao suporte nutricional, pode ser necessária gastrostomia para garantir as necessidades nutricionais em fases tardias da doença.
É essencial o acompanhamento por parte da terapia, dispositivos de apoio, cuidados nutricionais adequados, higiene do sono, apoio familiar e cuidados paliativos.
O apoio psicológico e emocional deve ser proporcionado à criança e família.

 

Prognóstico
Todas as formas de NCL1 com apresentação na infância causam diminuição marcada da esperança média de vida e morte prematura, apesar de tipicamente, quanto mais tarde o início dos sintomas, mais atrasado é o curso da doença.

 

Elaborado por
Dra. Margarida Moreno Fernandes
Interna de Formação Específica de Pediatria
Centro de Referência de Doenças Hereditárias do Metabolismo
Unidade Local de Saúde São João (ULSSJ)

 

Referências
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• Zhang Y, Du B, Zou M, Peng B, Rao Y. Neuronal Ceroid Lipofuscinosis-Concepts, Classification, and Avenues for Therapy. CNS Neurosci Ther. 2025;31(2):e70261. doi:10.1111/cns.70261
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• Rosenberg JB, Chen A, Kaminsky SM, Crystal RG, Sondhi D. Advances in the Treatment of Neuronal Ceroid Lipofuscinosis. Expert Opin Orphan Drugs. 2019;7(11):473-500. doi: 10.1080/21678707.2019.1684258. Epub 2019 Nov 27. PMID: 33365208; PMCID: PMC7755158.
• 5, Malik K, Santucci K, Sremba L, et al. Neuronal Ceroid Lipofuscinoses Overview. 2001 Oct 10 [Updated 2025 May 29]. In: Adam MP, Feldman J, Mirzaa GM, et al., editors. GeneReviews® [Internet].
• Saudubray J.-M., Baumgartner M. R., García-Carzola A, Walter J. (2022). Inborn Metabolic Diseases – Diagnosis and Treatment, 7th edition, Springer, pp 757-764.